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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Que tal apertar a descarga?

Esse artigo foi feito pelo Victor, terapeuta comportamental (trabalhamos juntos na USP em 2008 toda) e um amigo muito querido. Aí vai.

QUE TAL APERTAR A DESCARGA?

Quem nunca foi a um banheiro público e encontrou um presente boiando na privada, ou ao menos respingos de urina, ou urina parada e acumulada na água? Banheiros onde isso é esperado acabam fazendo com que evitemos seu uso, certo?


Um dia desses, em uma das minhas várias caminhadas habituais em direção ao banheiro mais próximo da USP, fui observando diversos cartazes, avisos, notificações, etc. que havia pelo caminho. Todos eles alertavam para algo que devíamos pensar e/ou fazer, como, por exemplo, “Pense no meio ambiente antes de imprimir seu trabalho”. Ao chegar ao banheiro me deparei com uma placa que havia estado lá durante toda a minha graduação, mas só depois de 5 anos fui percebê-la. A placa dizia: “Após terminar de usar o banheiro, aperte a descarga”.

É claro que todos nós já nos deparamos com uma placa deste tipo em nossas vidas. Foi aí que eu pensei. Por que eu nunca tinha reparado naquela placa? Quantas outras placas deste tipo eu ignorei, sem perceber, ao entrar em diferentes banheiros?

Eu sei, vocês devem estar pensando: “Esse cara é muito porco, nem dá descarga!” Mas é aí que justamente está o que inspirou este texto. Eu sempre dei descarga, mas como já usei diversos banheiros em minha vida, bem sei que muitas pessoas não o fazem.

Então, por que tais placas existem? Que efeito elas tem sobre os comportamentos das pessoas? Que efeito tem sobre as pessoas que colocaram tais placas? Essas perguntas envolvem muitas variáveis, mas poderíamos começar dizendo que o controle destas placas sobre o comportamento das pessoas depende da história de vida de cada um, e conseqüentemente, de quanto o repertório de seguir regras foi reforçado na ontogênese de cada um.

Mas se fosse simplesmente uma questão de repertório de seguir regras eu teria notado antes a placa... acreditem, infelizmente eu fui reforçado demais por seguir regras hahaha. É claro que meu comportamento de apertar a descarga está sob o controle de regras, já que eu certamente aprendi isto com minha mãe que dizia “depois de ir no banheiro aperte a descarga” e toda a vez que ela não escutava o som da descarga dizia: “volta lá e aperta a descarga”. Mas muitos de nós, senão todos, passaram por isso em suas infâncias. Por que então muitos não seguem esta regra?


É provável que as pessoas que não dão descarga não tiveram de entrar em contato com o produto de seus comportamentos....se é que vocês me entendem. Dessa forma, sem ter o contato com a contingência, muito pelo contrário, entrando em contado com uma contingência na qual eles utilizavam o banheiro e não precisavam limpar (ou simplesmente olhar por dias o resultado...) a regra deixou de ser a contingência explicitada (como podemos resumidamente defini-la) e não mais passou a controlar o comportamento de pressionar a descarga.

Ai é que está a grande questão da existência destas pequenas plaquinhas. Muitos faxineiros e donos de botecos, assim como donos de empresas (sim....ricos também deixam de apertar a descarga!!!) cansados de verem seus banheiros imundos, começaram a explicitar uma regra que antes não era mencionada e para muitas pessoas não mais controlavam seus comportamentos. As pessoas que já apertavam a descarga, muitas vezes não notam a presença destes estímulos nos banheiros que eles freqüentam. Para estas pessoas, o próprio “botão” da descarga já é um estímulo discriminativo que controla o comportamento de pressionar.


Mas será que estas placas fazem alguma diferença nos comportamentos de quem não usava a descarga? Bom, primeiramente, poderíamos dizer que estas placas sinalizam apenas parte da contingência ali presente. Elas simplesmente apresentam o estímulo discriminativo (apo usar o banheiro) e o comportamento que deve ser apresentado (pressionar a descarga), sem fazer menção à conseqüência. É claro que estas placas poderiam apresentar uma contingência de reforçamento negativo (dizendo que a descarga evitaria o cheiro insuportável), o que seria no mínimo engraçado de se ler para as pessoas que, como eu, pressionam a descarga. Mas uma contingência que poderia ser explicitada é a reforçadora positiva, dizendo que assim o banheiro ficaria mais limpo para um futuro uso, que dessa forma estaríamos contribuindo para a limpeza de um espaço que usamos.... sei lá...... várias coisas.... o importante é que cada vez mais estas pequenas placas fazem parte de nossa vida....o que nos faz pensar:

(1) as pessoas realmente estão mais porcas?; (2) o comportamento de colocar estas placas está sendo reforçado(controla de fato as pessoas)? (3) Há mais pessoas preocupadas com higiene, reciclagem etc (e portanto vê-se como produto mais plaquinhas de todo tipo)? Agora, se estas placas mudam o controle do comportamento de pressionar a descarga para quem não o fazia....isso acho que só os porcos podem dizer.....

Autor: Victor Mangabeira Cardoso dos Santos / vmcds@uol.com.br

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