
O que significa afirmarmos que a adaptação às novas regras gramaticais pode ser complicada, sobretudo no início? As regras gramaticais especificam a topografia de um comportamento verbal (vocal ou textual), em termos de sua relação com uma contingência estabelecida pela cultura, como por exemplo a nova regra:
"Não se usa mais o trema (¨), sinal colocado sobre a letra u para indicar que ela deve ser pronunciada nos grupos gue, gui, que, qui."
ou seja,
"Escreva palavras com gue, gui, que, que, sem o trema [resposta] para que a comunidade verbal aprove sua escrita [consequência]"
O problema é que em nossa história de vida, nosso comportamento foi condicionado sob controle de outras regras que, agora, mudaram. O que antes era reforçado (no caso, usar o trema), agora será punido, por exemplo, por um professor de português no caso de um aluno do ensino médio, ou pela revisão de uma editora de livros. O que antes era punido (esquecer o trema), agora será reforçado.
Além da mudança, ainda não tivemos tempo para nos expor às novas contingências, isto é, neste caso a regra é um antecedente verbal que especifica consequências que ainda não aconteceram. Quando passarmos por esse processo de modelagem, provavelmente "nos acostumaremos". O que isso quer dizer? Que a exposição às consequências fará com que nosso comportamento fique sob controle destas, com menos necessidade de verbalizarmos ou consultarmos a regra a cada escrita de palavra. Ainda bem!!!
E como fica a "terapia analítico-comportamental", uma vez que o hífen foi modificado em uma porção de palavras, e retirado em grande parte delas? Fiquei preocupada com isso: "analiticocomportamental" daria uma cacofonia bem embaraçosa. Escrevemos "terapia analítico-comportamental", corretamente, ao invés de "analítico comportamental", "analítica comportamental" ou algo do tipo, devido à seguinte regra gramatical:
Os adjetivos compostos, normalmente, têm apenas o seu segundo elemento alterado, o qual concordará com o substantivo que está modificando.
Exemplos:política econômico-financeira / políticas econômico-financeirasaliança luso-brasileira alianças luso-brasileiras
Percebam que o substantivo ("política") é feminino, e somente o segundo ajetivo ("financeira") concorda com ele, enquanto que "luso" não foi flexionado. No caso da nossa terapia, temos, analogamente:
"terapia" = substantivo
"comportamental"= ajetivo (qualifica a terapia, assim como junguiana, freudiana, humanista e assim por diante, todas no feminino
"analítico" = torna o ajetivo composto e, segundo a regra gramatical, não se flexiona.
A nova regra gramatical alterou uma porção de palvra com hífen, entretanto, somente aqueles constituídos de PREFIXO + hífen + NOME. Não é o caso de "analítico-comportamental" (nome composto de dois ajetivos). Sem contar que podemos considerá-la um nome próprio, tanto é que há uma certa confusão sobre escrever com iniciais maiúsculas ou minúsculas. Como nome próprio, não precisa de alteração em função das novas regras.
Enfim, de uma forma ou de outra, nossa terapia, felizmente, continua com a mesma grafia. Quanto ao resto, vamos aprendendo a escrever...




2 comentários:
(André) Oi Gi!!! Há tempos estava pra ler esse seu texto (olho pra ele todas as vezes que atualizo o nosso Blog)... Gostei bastante, principalmente até o "Ainda bem!!!"... estava pensando exatamente sobre os efeitos da reforma e o processo de adaptabilidade... Sua análise apresenta idéias (ou ideias, segundo a reforma) e problemáticas bastante relevantes.
Uma pergunta ficou: e aí, como amenizar tal traumatismo eminente? Eis um tema pro próximo post.
Um beijão procê!!!
André
Um beijo!!!!
Kd as atualizações? =)
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