Sábado, 16 de Agosto de 2008

Terapia Comportamental: A analogia do bumerangue


Tirei a foto acima na semana passada em um passeio pela UFSCar, onde jogamos bumerangue. Eu nunca tinha jogado bumerangue na vida. Se alguém já jogou bumerangue, deve se lembrar o resultado de suas primeiras tentativas. O bumerangue vai direto para o chão e sai quicando, ou ele vai e não volta, ou volta demais e faz você ir buscá-lo o tempo todo. A tarefa se torna mais viável se alguém mais experiente lhe instruir com regras e modelos. Aqui vão algumas regrinhas que aprendi com o jogador da direita (eu sou a do meio e a da esquerda também aprendeu):

- Você tem que jogar contra o vento e ligeiramente à direita dele;
- Você tem que desmunhecar a mão para baixo e rápido na hora de jogar;
- Você tem que posicionar o bumerangue na vertical em relação ao solo e incliná-lo trinta graus à direita para ficar na posição correta (isso se você for destro);
- O lado chanfrado do bumerangue fica voltado para você.

E aqui vai um modelo importante:
- Você observa o jogador modelo. Ele posiciona o corpo de determinada maneira (pé esquerdo à frente do direito, bumerangue na altura da cabeça, arremesso acima da linha horizontal etc). Você o imita.

Ainda assim, seguir-se-ão muitas arremessadas, em um processo de modelagem, até que alguma pareça ligeiramente razoável. Na foto há três bumerangues de modelos diferentes. Provavelmente, se você aprender a arremessar um deles, aprenderá mais facilmente a fazer com o segundo e com o terceiro. Mas, ainda assim, terá que se adaptar a características dele. O bumerangue da direita, por exemplo, tem somente duas pontas e o dobro do peso, é muito mais difícil, mas voa muito mais rápido e mais longe do que os outros.

Pensando nisso, criei uma analogia entre aprender a jogar bumerangue e aprender a ser um terapeuta analítico-comportamental. O jogador é o terapeuta e o bumerangue é o cliente. Para ser terapeuta, é necessário aprender via um conjunto de regras (bases teóricas, instruções sobre conduta) e modelos (seu supervisor, seus colegas, role-play, observação de sessões em estágios, auto-observação etc). O aluno de psicologia aprende primeiro com tudo isso e começa a aplicar com seu primeiro cliente, e as consequências vão modelando seu comportamento. Ele adquire uma série de repertórios e vai melhorando sessão a sessão, mas terá que adaptá-los para as particularidades do segundo cliente e dos próximos (os outros bumerangues).

Mais além: a intervenção do terapeuta é semelhante ao arremesso do bumerangue. Você tem algum controle sobre as variáveis, quanto mais possa conhecê-las e prevê-las. No entanto, uma vez no ar, o seu controle diminui. É o caso de uma súbita mudança na direção do vento, que faz com que seu arremesso não termine exatamente como você planejou. É o caso das contingências do dia-a-dia do cliente, que podem favorecer ou dificultar o trabalho. Nem o terapeuta, nem o jogador, têm controle absoluto da trajetória. E não se pode mandar no vento, mas sim saber como escolher o melhor lugar e hora para jogar. O jogador nunca sabe muito bem onde o bumerangue vai cair. Isso depende de características do objeto, do ambiente e da destreza dele. Na terapia também.

Uma última analogia: bumerangues “vão e voltam”. A volta pode ser traduzida por: o que reforça o comportamento do terapeuta? Não posso falar por todos, mas sugiro que, assim como jogar bumerangue, o reforço seja a melhora do cliente, o quanto o próprio terapeuta aprende no processo, e o desafio de sê-lo. Mas não espere que o bumerangue vá cair na sua mão, pois os holofotes devem estar sobre o vôo dele e não sobre você.

3 comentários:

Neto disse...

Uma bela analogia. Isso é bom pra lembrar que para que se chegue a algum resultado, temos antes de passar pelas fazes que nos levam a ele. Se não for bem feito, o resultado também não sai legal. Se o trabalho do terapeuta é bem feito, além do cliente sair satisfeito o próprio terapeuta é reforçado para fazer cada vez mais bem feito o seu trabalho.

Bruna Toniolo disse...

Estou no 10º semestre e sentindo na pele o desafio de se tornar um grande "jogador de bumerangue". Gi já li alguns dos seus textos, porém nunca me identifiquei tanto quanto este, será porque vc conseguiu descrever exatamente minha atual contingência?! Realmente o processo de modelagem a qual tenho passado com meus orientadores me faz cada vez mais sonhar com grandes arremessos.

Marcia Salete disse...

Interessante como sempre nos deparamos com estas situações, e que como reagimos diante delas.Muito bem colocado.