segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Crianças e adolescentes precisam aprender a lidar com o dinheiro


Crianças e adolescentes precisam aprender a lidar com dinheiro

Giovana Del Prette

Dinheiro é um poderoso reforçador generalizado em todas as sociedades em que ele existe, para indivíduos de todas as idades e classes socioeconômicas. “Reforçador generalizado” é um estímulo que controla uma ampla gama de respostas, porque acompanha uma imensidade de possibilidades de outros reforçadores. No caso, dinheiro dá acesso a reforçadores primários (i.e. alimentos), secundários (desde objetos pequenos como roupas e celulares até carros e casas) e, eventualmente pode levar a outros reforçadores generalizados (como quando alguém precisa de dinheiro para ir a uma festa, onde poderá se socializar com muitas pessoas).

Nossa vida inteira depende do dinheiro, quer gostemos ou não, quer saibamos ou não. Uma criança pequena pode não saber, mas sua alimentação e seus brinquedos foram trocados por dinheiro por seus pais em supermercados e lojas. Contudo, usualmente as crianças sabem algo sobre o dinheiro desde muito cedo, ao observarem adultos fazendo compras e conversando sobre preços e, posteriormente, ao utilizarem um pouco de dinheiro, ao menos para comprar lanches na cantina da escola.

Às vezes os pais podem se sentir temerosos em permitir que seus filhos lidem com dinheiro, restringindo ao máximo suas possibilidades de fazer qualquer tipo de compra sozinhos, ou tentando evitar que eles participem mais ativamente das compras da família e das conversas sobre os custos das coisas. Em outros casos, há pais que permitem desde cedo que os filhos comprem tudo o que querem, e nem sempre isso vem acompanhado de um ensinamento adequado sobre as finanças; assim, eles sabem os preços mas têm um conhecimento raso sobre os conceitos de “caro” e “barato”, como se faz para “produzir dinheiro”, qual a dificuldade para tal e muito menos a necessidade de poupar, como e quando gastar.

Os dois extremos citados podem ser desastrosos para a educação da criança nesse âmbito. No primeiro, podemos ter como resultado um jovem muito dependente e inseguro, pouco capaz de se arriscar e explorar o ambiente. Imagine que ter autonomia pode incluir, por exemplo, sair sozinho, pegar um táxi, metrô ou ônibus, se virar para comprar comida na ausência dos pais, passear, viajar com os amigos e assim por diante. Todas essas situações envolvem dinheiro. No segundo caso, temos como resultado um jovem consumista, que não precisou aprender a ter autocontrole em relação aos seus gastos e, portanto, poderá nem sequer valorizar o que tem, pois não precisa se esforçar para obter. Este é o perfil de quem tem de tudo mas, “estranhamente”, é um eterno insatisfeito e não tolera frustrações. Os dois casos se agravam com a idade adulta pois, cedo ou tarde, esses jovens terão que enfrentar situações ainda mais complexas, especialmente ao necessitarem se inserir no mercado de trabalho.

Para prevenir estas e outras complicações, os pais podem ficar atentos a algumas práticas educativas para auxiliar crianças e adolescentes a lidar com o dinheiro. Seguem algumas dicas aos pais, mas que também podem ser aplicadas em escolas (hoje em dia há muitas escolas investindo em aulas de economia para seus alunos, como nesta matéria do R7 e nesta do Jornal Hoje).

- Crianças pequenas podem comprar coisas simples, ao lado dos pais. A estratégia é bastante simples, e o objetivo é ensinar desde cedo a criança a ter desenvoltura no comprar, e saber fazer as perguntas certas. Ao invés dos pais fazerem todo o “trabalho”, podem dar instruções simples às crianças: “Pergunte ao moço quanto custa o suco”; “Dê esse dinheiro ao moço, espere o troco e pegue o suco”.

- Crianças e adolescentes podem participar da compra de supermercado/feira. Frequentemente, vemos crianças dando shows de birras em supermercados, insistindo para que os pais comprem aquilo que desejam. Assim, fazer as crianças participarem das compras pode parecer um projeto trabalhoso e contraproducente. Na verdade, essas birras têm grandes chances de acontecerem quando as crianças não têm uma tarefa no ambiente, e passam a explorar os espaços e produtos aleatoreamente, arrumando confusão. Portanto, é aconselhável os pais dividirem o trabalho com os filhos. Inicialmente podem permanecer juntos, com divisões como “Eu pego os tomates e você segura a sacolinha aberta”, “Vá buscar o macarrão enquanto eu busco o molho”. Nesses momentos, os pais podem ensinar as crianças a comparar e balancear o preço e a qualidade. À medida que essa tarefa se torna natural, os pais podem aumentar o nível de dificuldade e de independência, por exemplo, ao repartir a lista em duas metades e deixar a criança (ou adolescente) na incumbência de juntar sua parte, no seu próprio carrinho.

- Crianças e adolescentes podem ter uma “mesada”. A mesada (ou semanada) é uma maneira interessante de ensinar a criança a administrar gastos. Consiste num valor estabelecido, periodicamente, para os pais darem à criança uma quantia pré-definida. É importante que a criança/adolescente saiba, de antemão, quais coisas não precisa comprar com o próprio dinheiro e quais coisas os pais não comprarão para ela. Os acordos podem variar bastante. Os pais podem propor, por exemplo, que o lanche da cantina deve ser comprado com o dinheiro da criança, mas ela tem a opção de levar comida de casa - ou seja, caso queira economizar algum dinheiro ela não passará fome. Brinquedos fora de datas especiais (dia das crianças, aniversário, natal...) são considerados mais “supérfluos” e, portanto, comprados com o dinheiro da criança. Para adolescentes, pode ser realizado um acordo em que os pais compram as roupas que eles estão realmente “precisando”, mas roupas “extra” são compradas com a mesada. Mas, atenção: a quantia deve ser suficiente para as compras pequenas e rotineiras (como o lanche da cantina da escola), mas sem exceder tanto que os filhos nunca precisem economizar. É importante haver a necessidade de economia, de aprender a “juntar dinheiro”, para valorizá-lo ao comprar produtos mais caros. Se a criança gastar demais, ficará rapidamente sem dinheiro e, da próxima vez, aprenderá naturalmente a ser mais cautelosa, sem a necessidade de "broncas". Outro fator essencial é que os pais (e também os parentes próximos, como avós e tios) devem evitar dar dinheiro aleatoriamente para a criança/adolescente (mesmo que ela peça) pois, se isso acontece, todos os outros combinados deixam de ter sentido. Os presentes eventuais, sem motivo nem data, podem ocorrer desde que em pequenas doses. Além disso, não é necessário dar presentes caros. O essencial desses pequenos presentes é o “vi isso e lembrei de você”, como uma demonstração de carinho. Para finalizar, outra opção válida para a mesada é estabelecer um “mínimo” e, a partir daí, a criança/adolescente ganhar alguns bônus, contingentes a quantos dias estudou e fez as tarefas, ou fez alguns serviços da casa (como arrumar o quarto, lavar a louça, levar o lixo para fora).

- Crianças e adolescentes podem ter atitudes econômicas para o bem de toda a família. É muito interessante ensinar a criança a ter algumas atitudes que não beneficiarão somente a ela (como no caso da mesada), mas a toda a família e às vezes da sociedade. Isso acontece, por exemplo, quando os pais a ensinam a economizar água, fechar torneiras que estão pingando, não deixar a geladeira aberta, apagar as luzes ao sair dos cômodos, separar o lixo reciclável, prever adequadamente quanta comida irá comer, e assim por diante. Adolescentes que trabalham também podem pagar algum gasto da casa (como a conta de gás, de luz ou outra), a partir de um acordo com os pais. É importante que haja algum pequeno sacrifício nesse ato, mas não a ponto de desestimulá-lo. Assim, aprenderá a contribuir com o grupo e trabalhar pelo coletivo, em oposição a uma atitude demasiado individualista.

- Crianças e adolescentes podem contribuir em ações assistencialistas. Os pais podem combinar com as crianças/adolescentes, em algumas datas do ano, momentos para fazerem algumas ações assistencialistas. Isso pode incluir a doação de parte da mesada (somada a uma parte do salário dos pais) na ajuda de necessitados. É ainda mais produtivo se pais e filhos comprarem mantimentos com esse dinheiro e, eles mesmos, levarem os mantimentos até a instituição escolhida, onde podem passar algumas horas interagindo com os beneficiados. Outras ações são válidas além da compra de mantimentos. Elas incluem a separação de brinquedos e roupas que não são mais utilizados. Nesses momentos, a criança/adolescente pode perceber quais compras foram desnecessárias e excessivas, e reavaliar seus critérios.

Com essas e outras práticas educativas, os pais certamente irão prevenir vários problemas futuros no relacionamento dos seus filhos com as questões financeiras. Além disso, aumentam a chance de que eles sejam agentes de transformação social, preservação ambiental e deem bons exemplos aos seus colegas e às próximas gerações.

Você tem alguma outra dica, ou dúvidas sobre o tema? Escreva seu comentário.

domingo, 18 de julho de 2010

Do baianinho do axé à Adriana Partimpim: que modelos oferecer às crianças?

A gente sempre pode se surpreender ainda mais com o que vê por aí. Clique aqui para ver o vídeo de um bebê de um ano e meio dançando axé como gente grande.


É muito comum que as pessoas expliquem os comportamentos buscando causas internas ou outras explicações frágeis. Algumas delas poderiam ser:

- O bebê dança axé porque brasileiro já nasce com ginga no corpo, samba no pé etc.

- O bebê dança axé porque vai ser dançarino

- O bebê dança axé porque tem sangue baiano

- O bebê dança axé porque é igualzinho ao pai

... e assim por diante.

Nenhuma dessas explicações descreve as verdadeiras relações de contingência de uma história de vida (embora curta) que levaria a tal comportamento no presente. E mais, é esse tipo de explicação que leva a erros e generalizações super equivocadas: todo brasileiro tem samba no pé, vai ser dançarino, todo baiano dança axé, todo comportamento existe porque o pai também era assim etc.

Aqui vai uma lista de hipóteses que fiz sobre o que fez e faz o bebê dançar axé tão bem:

- O bebê tem acesso a pessoas dançando axé (aprendizagem vicariante, modelação)

- Quando ele imita alguém dançando axé, suas tentativas de imitação produzem admiração dos adultos

- Quando ele dança axé, sua mãe começa a filmá-lo (note isso no começo do vídeo)

- Quando os adultos têm conhecimento que ele dança axé, começam a fazer solicitações: "dança pra mim, vai, dança pra eu ver?"

- Se o bebê é capaz de atender às solicitações, obedecerá e dançará, produzindo ainda mais admiração dos adultos. Os adultos também têm seu pedido reforçado pela resposta do bebê.

- Quanto mais ele observa os outros dançarem, exercita a dança e produz admiração, mais hábil se torna no dançar, aprimorando a resposta e sendo cada vez mais admirado, num processo de modelagem.

O mais preocupante dessa história é a sexualização precoce, por meio da dança e das péssimas letras das músicas que a acompanham. Essa dança é incentivada em crianças por muitos grupos ou famílias, quando seria desejável restringir o acesso e colocar limites, e ao mesmo tempo incentivar a criança a danças mais apropriadas para sua idade, com letras inteligentes e ritmos variados.

E, para terminar, para mostrar que poderia existir uma brincadeira de carnaval saudável para as crianças, clique aqui para curtirem um clip da foto a seguir. Trata-se de "Baile Partimcundum", uma marchinha de carnaval do segundo álbum de Adriana Partimpim.



sábado, 17 de julho de 2010

[JAC-USP] Entrevista com os organizadores da 1a JAC-USP


O Paulo Abreu, psicólogo do IACC, entrevistou os organizadores da 1a JAC-USP.
Confira a entrevista completa clicando aqui.

"O encontro é promovido pelo Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia, que é reconhecidamente o berço da Análise do Comportamento no Brasil. A entrevista abordou assuntos desde os determinantes da escolha pelo tema do encontro até a escolha dos palestrantes convidados. Os organizadores estão bastante animados com os preparativos e dizem ter a certeza de estarem planejando um evento propício para o debate aberto entre os participantes." (Paulo Abreu)

A JAC-USP acontecerá nos dias 12 e 13 de Agosto e seu tema será: "Bases filosóficas e conceituais do Behaviorismo Radical". Nossos colegas do departamento de experimental estão organizando o encontro e já confirmaram algumas presenças, como:

Professor Doutor Marcus Jackson Marr
Professor Doutor Isaias Pessotti
Professor Doutor João Claudio Todorov
Professor Doutor Kester Carrara
Professor Doutor Alexandre Dittrich
Professor Doutor Lourenço de Souza Barba


Para maiores informações, acessem: http://www.jac-usp.com.br/


segunda-feira, 5 de julho de 2010

[ABPMC] Psicólogos respondem a Diogo Mainardi ou "Por que Dunga não é um behaviorista"


Segundo Diogo Mainardi (jornalista que demonstrou não entender nada de behaviorismo e pouco se importar com isso), Dunga só pode ser nosso B. F. Skinner. Ele faz com seus jogadores precisamente o mesmo que, nos primórdios do behaviorismo, B. F. Skinner fazia com os pombos e com os macacos de seu laboratório. Primeiro, prende-os numa gaiola. Segundo, isola-os de qualquer contato com o exterior. Terceiro, raciona seus alimentos. Quarto, condiciona seu comportamento administrando-lhes choques elétricos”.

Não é a primeira vez que a grande mídia troca as bolas sobre o behaviorismo e/ou a terapia comportamental. Uma das primeiras matérias que publiquei neste blog foi, justamente, sobre a grosseria da Super Interessante ao descrever erroneamente várias abordagens, na matéria "Terapia Funciona?", de julho de 2008. Para saber mais do que a Super Interessante publicou, clique aqui.

Acho importante rebatermos as críticas e, acima de tudo, divulgarmos (não contingentemente a elas) o nosso trabalho ao público leigo, que é um dos intuitos desse blog. Para ler o que a ABPMC respondeu a Diogo Mainardi, clique aqui.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Piadinhas infames de Doutoranda


É o que dá trabalhar tanto com análise estatística no meu Banco de Dados do Doutorado.... Quer ver a continuação da minha tirinha?

The trap nirvana and its relational frames

Mais um desenho meu em nanquim e aquarela.
Inspirado no texto do post anterior.

A armadilha do Nirvana, por Regina Christina Wielenska


Excelente texto de Regina Christina Wielenska no UOL: "A Armadilha do Nirvana".
Segue um trechinho para você querer ler mais:

"Através da armadilha das palavras, acreditamos que sofrimento é um estado do qual devemos fugir a qualquer preço, ou seremos considerados fracassados e desprezíveis, e que tombaremos porque a dor será insuportável e não seremos capazes de dar a volta por cima."

Nas bases do que ela escreveu, fica claro (para nós, analistas do comportamento) alguns princípios norteadores da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), de Hayes. Dentre eles, a proposta de psicologia contextual (que leva à teoria dos quadros relacionais, ou Relational Frame Theory), e corresponde aos avanços da Terceira Onda da Terapia Comportamental.

Para saber mais sobre Regina C. Wielenska, clique aqui.
Para saber mais sobre a ACT e Hayes, clique aqui.

sábado, 29 de maio de 2010

Agradecimentos às irmãs Malena e Maria Pia


Essas simpáticas garotinhas chamam-se Malena, de 11 anos, e Maria Pia, de 6 anos, são irmãs e moram na Argentina.

Meus pais foram visitar sua família, lá em Córdoba, e lhe deram de presente o meu livrinho, "O Presente Diferente".

Minha mãe contou que a Malena conseguiu ler em português direitinho, e gentilmente contou a história à sua irmã. Elas se divertiram muito com a história, e responderam corretamente todas as perguntas do Suplemento de Leitura!

Depois a Pia fez um desenho do Coelho Saul e deixou um recadinho para mim.





Obrigada, Pia!
Seu desenho ficou lindo!!!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Brincadeiras podem minimizar problemas e estimular as crianças

Matéria da jornalista Marina Gomes para o UOL Crianças, em que fui entrevistada.

21/07/2009

Brincadeiras podem minimizar problemas e estimular as crianças
MARINA GOMES
Colaboração para UOL Crianças

"Por meio das brincadeiras a criança demonstra características que pode tentar esconder nas atitudes do dia-a-dia", alerta Elaine Elaine Prodócimo, professora da Faculdade de Educação Física da Unicamp que trabalha com crianças.
Por isso, é importante ficar atento a comportamentos na hora de dividir brinquedos, negociar regras, dar opiniões, expressar sentimentos ou convidar amigos para brincar. "Quando a criança apresentar dificuldade para socialização, como brigar, não querer dividir, chorar, emburrar e fazer chantagens, os pais devem descrever, brevemente e de maneira adequada, o que está acontecendo, solicitando alternativas para solução do conflito, ou propondo-as", orienta Talita Pereira Dias, mestranda em Psicologia na Universidade de São Carlos (Ufscar), que estuda problemas de comportamento infantil.
Jogos que ensinam
O momento de brincar é essencial para o desenvolvimento da criança. "O jogo intensifica o contato com o mundo e as ações da criança expressam sentimentos, desejos e valores que ela ainda não diz por relatos verbais", explica Giovana Del Prette, doutoranda em Psicologia pela USP, na área de terapia infantil.
Todos os jogos e brincadeiras têm coisas boas a ensinar. "Jogos competitivos como Uno, Cara-a-Cara e Ludo mostram como lidar com regras e a desenvolver espírito esportivo. Outros, como Damas, Xadrez', 'Resta 1, Palavras Cruzadas e Detetive, estimulam o intelecto. Twister e Imagem e Ação exploram bastante a movimentação corporal", analisa Giovana. Utilizar sucata para construir brinquedos ajuda na criatividade e desenhar e inventar histórias estimulam a fantasia e a troca de papéis.

Uma ressalva feita pelo mestre em educação física pela Unesp e membro do Laboratório de Estudos em Psicologia do Esporte Rafael Kocian é sobre a atuação dos pais. "Muitas brincadeiras pedagogicamente corretas podem ser estragadas pela postura dos adultos presentes, enquanto brincadeiras mais "fortes", se bem trabalhadas, podem ser muito boas, como as artes marciais, que em primeiro momento parecem agressivas", alerta.

Mesmo apenas uma corridinha pode ser importante para as crianças. "No atletismo, por exemplo, os pais devem enfatizar a melhora individual. E, como pode ser desenvolvido em grandes grupos, favorece a socialização", conta Sara Matthiesen, doutora em educação e professora do departamento de educação física da Unesp.

Use as brincadeiras ao seu favor

Observe os tipos de atividade que seu filho mais gosta e tente explorá-los para minimizar atitudes inadequadas. Comece com atividades simples, que não exijam comportamentos específicos relacionados à dificuldade da criança e, gradativamente, aumente a complexidade. Veja as sugestões abaixo e, se preciso, faça adaptações.

Falta de atenção

"Veja os assuntos que chamam a atenção da criança. Se ela gostar de carro, enfoque isso e invente um pega-pega com o tema carro, por exemplo. Aos poucos, insira outras mais concentradas, como jogo de memória, quebra-cabeça, dominó, damas, xadrez e jogos de montar, sem pressionar quanto ao tempo de permanência", ressalta Elaine.

No início, tente atividades que envolvam movimentação e, aos poucos, requeiram momentos, ainda que curtos, sentado ou parado, como é o caso de "estátua" e brincadeiras de imitação.

Agressividade

Kocian diz que nos jogos de interação as regras devem ser bem claras e rígidas. Se durante a queimada ou futebol a criança briga ou joga a bola com força excessiva, deve ser desclassificada. "Sugira brincadeiras de cooperação, como produzir algo em conjunto (cozinhar, montar um quebra-cabeça) e, por meio de histórias, estimule o reconhecimento dos sentimentos dos outros, que sofrem a agressão", conta Talita.

Timidez


Comece com brincadeiras mais ativas (brincadeiras de roda, passar a bola por debaixo das pernas) e, aos poucos, introduza a comunicação (telefone sem fio, passa anel) e a participação em turmas, começando por duplas, trios, até chegar em grupos maiores, explica Talita. "Destaco as brincadeiras que utilizam expressividade, integração e tomada de decisões, como jogos de imitação e mímicas", afirma Kocian.

Dificuldade para dividir as coisas

"É importante que as atividades envolvam materiais que continuem disponíveis mesmo que a criança aceite compartilhar, como a pintura com guache ou peças de montar em grande quantidade. Evite, de inicio, brincadeiras que envolvam um único exemplar do brinquedo (carrinho, motoca, boneca etc)", sugere Talita.

Link original: clique aqui

quinta-feira, 20 de maio de 2010

[Helder Gusso] O que é ser holístico? Ou por que o alérgico não precisa de remédios…

Meu amigo Helder Lima Gusso, pesquisador analista do comportamento em Florianópolis (SC), escreveu o artigo "O que é ser holístico? Ou por que o alérgico não precisa de remédios".



Gente, "Holismo" não é uma abordagem teórica da psicologia (pelo menos nunca vi em nenhuma grade curricular de Graduação). Entretanto, tem muito psicólogo por aí que se anuncia como "Holístico", e a descrição que eu ouço sobre o tipo de prática é um assustador balaio de gato (e nada científico.

Entretanto, Helder Gusso conseguiu explicar claramente o real significado do termo "holístico". Sua conclusão é muito interessante. Ficou curioso? Segue o link da matéria completa: http://sasico.com.br/psico/?p=1412

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Viagem de Chihiro: Cinema Paradigma em 17/04

Convido a todos a assistirem o Cinema Paradigma de Abril, em que debaterei o tema "a aprendizagem de valores" segundo a abordagem comportamental e a partir da exibição do filme "A Viagem de Chihiro". A inscrição é feita no site do Paradigma e a entrada é 1kg de alimento não-perecível.

O Cinema Paradigma ocorrerá dia 17 de Abril, próximo sábado. O filme é exibido das 14:30 às 16:30, seguido de debate até 18:30. Quem não puder chegar às 14:30 também pode assistir o filme em casa e vir só para o debate. Pra quem não viu... o filme é lindo!

Mais informações no folder abaixo e no site do Paradigma, http://www.nucleoparadigma.com.br/eventos/index.asp?id=20&tipo=11

Divulguem o evento a quem mais possa se interessar!

terça-feira, 23 de março de 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Big Brother é um laboratório (des)humano

Eu ainda não havia me manifestado sobre o Big Brother Brasil 10, embora tivesse uma porção de coisas para falar sobre ele, mas o que vi hoje na televisão foi a gota d'água.


A "Prova do Líder" dessa semana foi uma demonstração mais explícita do que já acontece com o funcionamento das regras da casa diariamente: o BBB é um laboratório (des)humano. Já ouvi algumas pessoas (felizmente, poucas) falarem que gostam de assistir porque é uma espécie de vitrine onde podemos observar pessoas se comportando - o que é uma idéia sedutora para quem tem o comportamento como objeto de trabalho e de estudo. Hoje, me vi assistindo claramente para saber quais coisas horríveis andam acontecendo por aí. Igual a assistir noticiário sobre desgraças.

Nessa "Prova do Líder", os participantes foram colocados em um espaço fechado, com um carro dentro (prêmio ao vencedor), onde aconteciam catástrofes naturais bizarras. Em uma hora chovia dentro desse espaço, em outra hora fazia um calorão e eles cozinhavam, em outra fazia frio e eles congelavam, e por aí vai. Todos tinham que permanecer lá dentro, em pé, aguentando tudo, sem dormir nem fazer suas necessidades.

Alguns participantes choraram, outros cambalearam de sono, outros demonstraram bastante desespero. Até que, exaustos, foram desistindo, sobrando um vencedor.

O caso é que essas contingências se assemelham àquelas desenvolvidas para um modelo experimental denominado Chronic Mild Stress (CMS). Este modelo estuda os efeitos de contingências estressoras relativamente breves e leves, porém incontroláveis, imprevisíveis e inescapáveis. No caso do laboratório, o ratinho é exposto a luz forte, ruído, leve choque nas patas, gaiola inclinada, serragem molhada. As consequências da repetição disso tudo são muito parecidas com o que chamamos de DEPRESSÃO em humanos. O rato reduz suas atividades, deixa de explorar e deixa de comer mesmo tendo oportunidade.

Esse experimento tem uma utilidade importante; faz parte de estudos com animais que servem para compreender melhor problemas humanos e, a partir daí, facilitar a produção de tecnologia de intervenção para tais. É uma situação em que espera-se que os benefícios dos resultados superem largamente os danos feitos às pobres cobaias. Tudo isso ainda seguindo um rigoroso controle ético.

E o BBB? O BBB é um laboratório (des)humano ambulante, feito para divertir o telespectador e engordar os bolsos de quem o produz, patrocina e transmite. Essa "Prova do Líder" demonstrou, de modo mais agudo, o que tem sido feito diariamente com aquelas pessoas. É um programa completamente anti-ético, e não importa se eles "escolheram estar ali". Se alguém escolhe se jogar de um prédio, ainda assim os bombeiros tentam resgate forçado; se alguém anuncia para seu psicólogo/psiquiatra que vai se matar, esse profissional fará de tudo para interná-la, ela querendo ou não.

Mas, no BBB, as pessoas são expostas às mais diversas condições, e ainda são tratadas como heróis (ou "celebridades", o que hoje em dia infelizmente dá no mesmo), em troca de um curto período de fama, para depois caírem no esquecimento e viverem sob a tortura do rótulo de "ex-BBB", perdendo a própria identidade. Elas vivem contingências completamente esquizofrênicas, em que sentar numa gaiola produz ganhar um automóvel, arremessar bolinhas produz liderança, atender um telefone produz imunidade e esgoelar-se na hora certa é sinal de sensibilidade.

Sinto uma certa certa vergonha alheia por tudo isso existir, e um pouco de tristeza caso esse programa (e outros do gênero) leve as pessoas a ficarem insensíveis a coisas que não deveriam ser encaradas, jamais, com naturalidade.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Sob controle dos eventos privados!




SOB CONTROLE DOS EVENTOS PRIVADOS!



Desenhei minha primeira tirinha!!!
Me aventurando no mundo do nanquim & aquarela.
PS: Aceito sugestões de temas para as próximas...

domingo, 7 de março de 2010

Breve análise comportamental do ciúme


Estou cada vez mais convencida de que as explicações para o comportamento ciumento deveriam equilibrar-se, igualmente, na questão das consequências e do controle de estímulos. Quanto mais histórias de ciúmes eu conheço, mais me parece que o problema dos Sd's é tão importante quanto o do reforço. E raramente é abordado nas discussões e interpretações que costumo ouvir a respeito. Talvez pela tradição behaviorista de enfocar as consequências! Mas a análise de Sd's está se mostrando, para mim, interessantíssima em todos os aspectos. Especialmente pela inclusão, mais fácil, das relações respondentes e dos processos verbais mais complexos.

Não tenho nenhuma pesquisa específica pra provar a minha "tese", então considerem isso um exercício de interpretação comportamental a partir de acúmulo de relatos a respeito. Ok? Vamos começar pelo mais fácil, as respostas e as consequências. Pois, é claro, elas ainda são essenciais. Mas depois chegarei no ponto chave desse tópico, os Sd's da contingência.

Exemplos de respostas abertas da classe "ciúme" (aqui estou tratando só do ciúme em casais):
- Interrogar: "Por onde você andou esse tempo todo?"; "Por que não atendeu o celular?" Ou então, pode parecer somente um interesse excessivo em todos os detalhes do dia do parceiro, nos momentos em que estava sem ele: "Como foi o seu dia, o que você fez, e depois, e depois, e quem estava lá, e quem você viu, quem você não viu?..."
- Solicitar: "Se você se encontrar com seu ex, me avise"; "Se alguém pedir pra ficar com você, eu quero saber"; "Me avise quando for chegar tão tarde em casa". Nesse último, pode parecer uma espécie de preocupação disfarçada: "Achei que tivesse acontecido alguma coisa, você não me avisou".
- Duvidar: "Então fulano passou a tarde com você e você jura que não houve segundas intenções?"
- Ameaçar: "Se esse cara fizer alguma coisa, não diga que não avisei. se você encontrar ele de novo, sabe como vou ficar"
- Respostas não vocais: fazer bico, amarrar a cara, evitar contato físico, normalmente demonstrações de tristeza e/ou raiva.
- Agredir: xingar, elevar tom de voz, enfurecer-se, bater etc.

Existem nuances mas, falando de maneira bem geral, o que há em comum entre essas respostas é que são emitidas em condições em que o indivíduo não está recebendo atenção / cuidado / carinho de seu parceiro (ou recebe pouco), e que isso pode significar que ele está dando essa atenção a outrem (mesmo que não seja na forma de uma traição, pois o parceiro pode sentir ciúme do amigo, da amiga, da família, do trabalho etc). Essa é a definição básica de ciúme: o sentimento correlato de uma contingência de perda de reforçadores, que estão sendo "dados" a outra pessoa.

Exemplos de consequências reforçadoras para o ciúme:
- Explicar: "Meu chefe me segurou mais tempo no serviço"; "Minha bateria descarregou".
- Reassegurar: "Claro que não, amor, só tenho olhos para você"; "Você é tudo na minha vida" etc.
- Demonstrar mais carinho: Ficar perto, abraçar, consolar, fazer coisas juntos para compensar.
- Evitar mais ciúme: Evitar, antecipadamente e mesmo sem o pedido explícito dele, situações ou pessoas de quem o parceiro poderia sentir ciúme. Explicar, reassegurar ou demonstrar mais carinho antes mesmo da resposta de ciúme, como uma "prevenção" (esquiva de conflito)
- Brigar de volta: Discutir, acusar de volta, bater boca. Essa interação pode ter um componente aversivo (não é exatamente uma troca de gentilezas), mas também pode ser reforçadora devido ao componente da atenção q se está despendendo ao ciumento.

Aqui, o primeiro ponto, mais óbvio, é que a resposta de ciúme é reforçada. O parceiro, sem querer, está ensinando direitinho o indivíduo o que fazer para conseguir atenção / carinho / cuidado / segurança extra. Mas há outro ponto: todas essas consequências são, de certa forma, um "reasseguramento". Uma garantia extra de que o indivíduo está seguro, não vai "perder o outro", ainda é amado, respeitado e tratado com fidelidade. Além disso, reforçar respostas de ciúme também pode fortalecer autorregras (descrições verbais) sobre a necessidade de desconfiar. Algo como: "Tá vendo, se eu não tivesse alertado, ele não teria percebido que a fulana tava dando em cima dele"; "Tá vendo, se eu não ficar em cima, ele pode sair por aí e se interessar por outra", e por aí vai.

Exemplos de consequências típicas a longo prazo, que podem comprometer uma relação:
- Distorções de relato: Omitir, amenizar ou modificar informações para evitar outra crise de ciúme do parceiro, ainda que essas situações não sejam de fato "comprometedoras" (não sejam traição, nem mesmo desrespeito). As distorções podem acontecer naturalmente (sem intenção de distorcer) e até inconscientemente, somente pelo fato de que, uma vez que o parceiro desconfia, o indivíduo passa a aperfeiçoar ao máximo seu relato e é modelado a isso (a consequência reforçadora é a redução dessa desconfiança).
- Isolamento: Casal se isola de outras pessoas, reduzindo interações sociais fora da díade e levando que um seja, para o outro, cada vez mais a maior fonte de reforço; isso aumenta a dependência de um pelo outro e, portanto, o ciúme.
- Díade ciumenta: O outro também pode começar a demonstrar ciúme, fechando mais ainda o casal.

Essa parte creio que está clara. Relações ciumentas geram relações ciumentas, isolam o casal e acirram uma escalada de desconfianças e inseguranças sobre o outro. O principal é que: se eu preciso reagir com ciúme para ele me dar atenção extra, sou reforçado instantaneamente e, em seguida, assim que sentir nova insegurança, vou fazer a mesma coisa. Portanto, estarei sempre inseguro e sempre fortalecendo minha opinião sobre o quanto essas reações são necessárias.

Agora vamos ao último ponto: os Sd's. Sd's são as situações que evocam uma resposta. O que tenho visto é que pessoas muito enciumadas têm uma boa probabilidade de serem desconfiadas e/ou inseguras em geral, não apenas com o parceiro. E que, além do papel das consequências, isso significa que elas se comportam sob controle de algumas propriedades dos estímulos que levariam a sentirem insegurança e ciúmes, e não sob controle de outras propriedades, que a deixariam sossegadas.

Vamos aos exemplos (Dariam pano pra manga pra discutir relações de equivalência verbal e quadros relacionais de Hayes, quem domina a área pode imaginar do q estou falando):
- O cara almoça com uma amiga. A namorada/esposa ciumenta pode responder sob controle de algumas propriedades de "amiga": é bonita, tá solteira, é legal e de algumas propriedades da situação: é um almoço, estarão só os dois... Essas propriedades eliciam respondentes desagradáveis (insegurança, medo, raiva etc, enfim, o sentimento de ciúme), e também as respostas abertas... e o resto você já sabe.
- O celular dela está desligado. O namorado ciumento responde sob controle de algumas propriedades de "celular desligado": desliga-se celular quando não se quer ser encontrado, ela está fazendo algo proibido e não pode ser interrompida. Ciúme.
- Ela olhou para outro. "Olhar para outro" significa que ele é é interessante para ela, se esse outro perceber, pode se aproximar, pode rolar uma paquera. Ciúme.
- Ele gaguejou para se explicar sobre onde estava. Aqui, veja que já se está sob controle de uma das propriedades do todo, o "gaguejar". Gaguejar é sinal de nervosismo. Nervosismo é sinal de mentira. Mentira é sinal de ter algo a esconder. Algo a esconder é algo que eu não aprovaria. Ele está me traindo. Insegurança. Ciúme.

Esses processos, na maior parte das vezes, nem precisam ser conscientes. O ciumento nem se dá conta. Ele simplesmente sai selecionando estímulos do ambiente que o deixam mesmo, muito inseguro. Ele tem razão para tanta insegurança, qualquer um se sentiria assim se ficasse o tempo todo sob controle desses Sd's. E não seleciona outros estímulos que seriam um antídoto. Ele não aposta que as coisas possam simplesmente significar aquilo que são, sem fatos e intenções ocultas que precisam ser escarafunchados. E olha que estamos analisando aqui as relações em que o parceiro está se comportando sem violar o "contrato de namoro/casamento" (sem trair, paquerar outros etc). O caso é que, na relação com o ciumento, não importa o quanto o parceiro seja fiel, caseiro e certinho. Sempre haverá ciúme, porque sempre haverá possibilidade do ciumento se comportar sob controle de estímulos que eliciam insegurança. E, com o desenrolar da história, mais e mais estímulos (outrora neutros) serão arrastados para a contingência do ciúme (num processo de generalização), inclusive por causa do reforço final.

Os sentimentos, como operações estabelecedoras, podem alterar a contingência na hora da crise de ciúme. E depois o indivíduo pode até admitir que foi um completo idiota. Mas isso ainda nos leva a um outro problema: isso não necessariamente alterará o controle de estímulos (e nem as consequências produzidas). Assim, da próxima vez, ele ainda vai enxergar pêlo em ovo, mas vai acrescentar uma nova resposta à contingência: o autocontrole. Ele ainda vai olhar de modo enviesado para as situações; selecionar indícios de que o outro está fazendo algo que põe a relação em risco mas, como sabe onde a briga por ciúme pode levar (a situações ainda mais aversivas), vai tentar controlar a expressão de ciúme. Vai tentar se controlar tanto que logo explode. Porque ele não pode controlar o próprio sentimento: ele tem um componente respondente (eliciado, não controlável) e as demonstrações são mantidas pelas consequências. Assim, com o autocontrole, às vezes o cara até perde reforço (punição negativa).

É por isso que é tão difícil lidar com o ciumento. É muito difícil não reforçar ciúme. Mas, pior ainda, é muito difícil mudar controle de estímulos em geral (haja terapia!). A resposta do ciumento facilmente se desenrola numa bola de neve, porque está comprometida por questões tanto de Sd quanto de consequência! O Sd evoca ciúme, a resposta ciumenta é emitida, a consequência a mantém. E os sentimentos eliciados a instigam! Paralelamente, instalam-se e mantêm-se respostas verbais (autorregras) sobre isso tudo, complementando a contingência. O ciumento sofre muito, sofre mais ainda com as tentativas frustradas de mudar isso tudo com táticas de autocontrole, normalmente pouco eficazes.

Quando o ciúme pertence a uma classe ainda mais ampla de respostas, normalmente é aquela a que me referi como uma "insegurança geral", ou também "desconfiança geral". Trata-se das pessoas com muita tendência a interpretarem sinais do ambiente como ameaçadores. Então reagem a esses sinais, e não a outros. Mesmo sinais neutros, em uma contingência suplementada verbalmente, adquirem propriedades aversivas. O cara reage. E, para piorar, se for reforçado com asseguramentos, ou se for punido, a conclusão acaba sendo sempre a mesma: o mundo é mau, tá vendo como eu preciso mesmo ser hipervigilante?!

Pra fechar, não vamos nos esquecer do peso de uma história de vida na construção disso tudo. Uma história para além daquela que se viveu com o parceiro. Uma história inteira. Pessoas que desconfiam o tempo todo podem ter tido as mais diversas histórias, e essa é a beleza da análise idiográfica, que os analistas do comportamento tanto valorizam. Aí vão alguns exemplos simples (uma análise cuidadosa de cada caso combinaria muito mais informações ok?). Pode ter um cara desconfiado que, no passado, foi muito punido em relações sociais (zoavam com ele pelas costas, traíam a confiança dele), gerando insegurança e necessidade de ficar atento a isso (selecionar esses Sd's!), para se proteger. Pode ter uma moça que não sofreu nada disso, mas viu a mãe ser traída pelo pai, iniciando suas desconfianças e inseguranças nesse ponto. Outro cara pode de fato ter sido traído no namoro/casamento passado. Mais outro, pode nunca ter imaginado ser capaz de trair e, pelos diversos motivos, uma vez o fez e portanto consegue imaginar que qualquer um também é capaz de trair como ele. Uma outra pessoa, ainda, pode ter tido recebido pouco afeto durante períodos de sua vida, e aprendeu a "cavar" esse afeto com demonstrações de insegurança. E por aí vai. Complexo, não?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

[vídeo entrevista] Precisamos Discutir a Relação


Dr. Roberto Banaco é entrevistado no Programa Show Mais, da Rede TV Mais. Ele aborda o tema "Precisamos discutir a relação", junto com mais dois profissionais. Para assistir o vídeo, clique aqui.

* Se o vídeo não rodar, é provável que apareça uma mensagem pedindo para instalar um programa. Podem instalar que vai.
** Tem um pouco de merchan, tenham paciência. Vale à pena. Eu ia editar, mas descobri q é ilegal tirar os merchans, aí ficou na íntegra.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Milionário se desfaz de fortuna porque se sente infeliz


Acabo de ler uma interessante matéria sobre um milionário austríaco que resolveu vender todos os seus bens, doar o dinheiro a instituições de caridade da América Latina, e morar numa casinha de madeira com a esposa.

"Minha ideia é não deixar mais nada. Durante muito tempo pensei que acumular riqueza me faria automaticamente mais feliz. O dinheiro é contraproducente, impede que a felicidade chegue. Apenas ouvi o que disseram o meu coração e a minha alma. Mais e mais eu ouvia as palavras: 'Pare o que você está fazendo agora - todo esse luxo e esse consumismo - e comece uma vida de verdade" (Leia a matéria completa clicando AQUI).

Num mundo onde poucos têm muito, e muitos não têm nada, este homem avaliou que seu suposto privilégio o fazia muito infeliz. Mas como isso é possível?

Basicamente, por meio do dinheiro, um indivíduo tem acesso a muitíssimos reforçadores, e é por isso que ele é denominado de "reforço generalizado". A relação entre a resposta da pessoa e a consequência passa a ser intermediada pelo dinheiro, o que a torna menos mecânica, menos física, menos intrínseca. Fica mais fácil visualizarmos as diferenças quando comparamos com civilizações antigas, quando não havia dinheiro e nem tecnologia como a atual. Observemos:



Na primeira situação (Obelix), temos uma relação direta entre os termos da contingência, ou seja, "na natureza, caçar produz comer, que produz saciação". Nas outras duas situações (aproximando-se do Sr. Burns), "apertar botões produz lasanha, que produz saciação"; é uma relação artificial porque na natureza apertar botões não leva a lasanhas. Ou então temos que "dar ordens produz pessoas me servindo, que produz comida, que produz saciação"; é uma relação que distancia a resposta de seu produto pela intermediação social. No caso do milionário, é provável que seu trabalho passe a ser, cada vez mais, "fazer dinheiro", isto é, administrar dinheiro e administrar pessoas.

Mas há ainda outras possibilidades para bagunçar as contingências. Uma delas é a denominada "reforço livre". Reforço livre se dá quando o indivíduo não precisa responder, basta "existir" para obter consequências. É mais ou menos assim com crianças mimadas e com pessoas que ocupam cargos de destaque social e passam a ser hiper bajuladas. Parece legal, mas não é. Na verdade, pessoas nessa condição podem ter sérios problemas. É uma contingência de incontrolabilidade e tédio, é pouco estimulante e, portanto, triste.

Por fim, temos outras diferenças, como por exemplo o acesso a reforçadores disponíveis somente para a minoria, riscos e dores-de-cabeça bem específicos (que levam à necessidade de seguranças e carros blindados, por exemplo), e alienação + impunidade para outras tantas situações...

O milionário da reportagem teve a chance de mudar radicalmente sua vida (movido um pouco pela culpa social), e ficar mais próximo de um ambiente que lhe proporcione contingências mais naturais. Mas todos nós podemos fazer isso com nosso dia-a-dia, em pequenos e contínuos detalhes, quando plantamos uma pequena horta, quando optamos por fazer um belo almoço de domingo ao invés de comprar pronto, quando caminhamos um pouco pela cidade ao invés de utilizar o carro, ou mesmo quando escolhemos um livro ao invés da televisão. Você consegue pensar em mais contingências naturais que quer para sua vida?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Aprofundamentos sobre o Ato Médico

Depois que escrevi sobre o Ato Médico ("Desatando o Ato Médico" - se você não leu, sugiro ler primeiro antes de continuar aqui), recebi uma série de comentários, alguns deles pelas listas de emails que participo.
Um dos comentários endereçados ao [COMPORT] me chamou a atenção, alertando a respeito do Parágrafo 2:

Não sei nem se esse artigo foi aprovado ou não, mas existe uma "pegadinha":
"Não são privativos do médico os diagnósticos funcional, cinésio-funcional, psicológico, nutricional e ambiental, e as avaliações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva"

O que isso significa?
Psicologo faz diagnóstico psicológico ? SIM
Médico faz diagnóstico psicológico? SIM, TAMBÉM, mas não de forma privativa!! (ele também pode fazer, ou seja, ele poderá fazer tudo que as outras profissões fazem, sem interferir nelas + todas as funções privativas do médico)

Não se deixem enganar, seja contra o ATO MÉDICO sempre
Mesmo sem existir a lei, o ATO MÈDICO existe na prática.

Fiquei preocupada com o alerta, e resolvi procurar mais informações a respeito. Também conversei com um colega e, em seguida, com nossas conclusões, escrevemos alguns comentários que se seguem:

APROFUNDAMENTOS SOBRE O ATO MÉDICO
(Giovana Del Prette e Leandro Luis Santos e Nascimento*)

*Leandro é bacharel em psicologia e mestre em Psicologia Evolucionista, pela USP.


Iremos aprofundar algumas questões sobre o AM, inicialmente, a partir da comparação entre a primeira versão (a Lei do Ato Médico, o PLS (Projeto de Lei do Senado) 268 / 2002) e atual (o
SCD, Substitutivo da Câmara dos Deputados 268 / 2002), também disponíveis em uma tabela comparativa.

PLS 268 / 2002
Art. 4º, § 2º Não são privativos do médico os diagnósticos funcional, cinésio-funcional, psicológico, nutricional e ambiental, e as valiações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva.

SCD 268 / 2002
Art. 4º, § 2º Não são privativos dos médicos os diagnósticos psicológico, nutricional e socioambiental e as avaliações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva e psicomotora.

Há uma mudança perceptível de um projeto para outro, que nos fornece outros pontos de discussão. Mas pretendemos, no momento, nos limitar ao ponto levantado pelo colega sobre a existência de uma "pegadinha" no AM:

Psicologo faz diagnóstico psicológico ? SIM
Médico faz diagnóstico psicológico? SIM, TAMBÉM, mas não de forma
privativa!! (ele também pode fazer, ou seja, ele poderá fazer tudo que
as outras profissões fazem, sem interferir nelas + todas as funções
privativas do médico)


Aqui, vamos assumir que a afirmação aplicar-se-ia a ambas as versões, uma vez que o diagnóstico psicológico está presente em ambas. Discutiremos o ponto de duas maneiras: uma primeira um pouco mais comprida e detalhada; e outra de uma maneira (digamos) mais sucinta, para o leitor com pressa ou desinteressado (sim, se quiser pule agora para os últimos parágrafos, logo após o aviso em negrito).

O Parágrafo 2. do Art. 4 é o primeiro momento em que o psicólogo ou sua atividade aparecem na lei, ele integra um artigo cujos itens descrevem as funções privativas do médico e apenas elas. Após essa lista surge uma sequência de parágrafos que descrevem as especificações técnicas das doenças e práticas abrangidas e as exceções para as funções privativas. Como, por exemplo o parágrafo 7º.

PLS 268 / 2002
Art. 4º, 7º O disposto neste artigo será aplicado de forma que sejam resguardadas as competências próprias das profissões de assistente social, biólogo, biomédico, enfermeiro, farmacêutico, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista, profissional de educação física, psicólogo, terapeuta ocupacional e técnico e tecnólogo de radiologia.


SCD 268 / 2002
Art. 4º, § 7º São resguardadas as competências específicas das profissões de assistente social, biólogo, biomédico, enfermeiro, farmacêutico, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista, profissional de educação física, psicólogo, terapeuta ocupacional e técnico e tecnólogo de radiologia e outras profissões correlatas que vierem a ser regulamentadas.

Em uma lei, não existe hierarquia real entre seus itens, um parágrafo 2º não é mais forte do que um parágrafo 7º, ou 45º, eles não podem apresentar conflito (e para os conflitos que possam surgir, existem os controles, como o judiciário e o veto, o que não é o caso).

Note o leitor (note mesmo, leia a lei): não há, em qualquer parte da lei uma descrição das práticas não-privativas do médico, há apenas aquele pequeno parágrafo afirmando que certas práticas não são privativas. É importante aqui a ordem das palavras, parece que estamos forçando a barra, mas o processo legislativo bicameral existe para que tal atenção seja dada (como se pode perceber nas correções feitas de um projeto para outro). Afirmar que uma prática não é privativa, não significa afirmar que se trata de uma prática não-privativa, significa dizer que dentro do escopo abrangido existem algumas exceções. Tal idéia pode ser compreendida ao observarmos a lei como um todo, pois os parágrafos do 1º ao 8º do Art. 4º, como já disse, especificam maior tecnicidade ou criam exceções às funções do médico.

A existência do parágrafo 2º, ao contrário do afirmado, garante ao psicólogo sua função. Afirma que tais tarefas não são privativas ao médico, que são exceções ao diagnóstico nosológico, descrito no parágrafo anterior e definido no primeiro item do artigo como privativo ao formado em medicina. Sem a existência desse parágrafo o diagnóstico nosológico incluiria o psicológico.

Além das garantias descritas, essa lei, após suas modificações (crédito dado às Entidades de Classe e ao Senado), tira inclusive do Conselho Federal de Medicina (CFM) a competência para fixar a extensão e a natureza dos procedimentos próprios dos médicos, como constava na primeira versão do projeto (em 2002, quando ainda era intitulada Lei do Ato Médico, ou
PLS 25 / 2006). Mais uma garantia de que nossas atividades não serão afetadas por mera vontade de uma outra Entidade de Classe.

Mas se esses argumentos não forem o suficiente, voltemos ao Parágrafo 7º do mesmo artigo (destacado previamente), que diz que são resguardadas as competências do psicólogo (em ambas as versões), competências, estas, também especificadas por lei, conforme já foi destacado no texto anterior, "Desatando o Ato Médico":

Lei 4.119 de 1962, Art.13, Parágrafo 1º: Constitui função privativa do psicólogo a utilização de métodos e técnicas psicológicas com os seguintes objetivos: (a) diagnóstico psicológico; (b) orientação e seleção profissional; (c) orientação psicopedagógica; (d) solução de problemas de ajustamento.

Ou seja, em dois momentos diferentes, ambos os projetos de lei garantem ao psicólogo sua atividade e ambos os parágrafos condizem com uma lei já existente. Bem, a lei 4.119 / 1962 não explicita que o diagnóstico psicológico é prática privativa do psicólogo, apenas os métodos e técnicas que tenham tais objetivos. Isso é uma brecha que permite ao médico o tal diagnóstico? Sim, mas apenas em parceria com um psicólogo, pois ele não pode aplicar qualquer método ou técnica com esse objetivo. A lei torna o médico dependente do psicólogo, no campo da psicologia, e os projetos de lei em discussão não modificam tal estrutura. Para clarificar:

=== Caso você tenha pulado a parte longa, começe aqui.===

O argumento de nosso colega está correto? NÃO
O parágrafo 2º vai mudar alguma coisa na nossa profissão? NÃO, TAMBÉM, nossas funções privativas são garantidas por lei anterior e o parágrafo descreve exceções às atividades privativas do médico, e não atividades não-privativas do mesmo. Além disso há mais um parágrafo afirmando que são resguardadas as competências do psicólogo (e de outros profissionais de saúde).

Podemos lutar para implementar melhoras na redação do AM e diminuir ainda mais tais tipos de equívocos? SIM, MAS isso é diferente do que bradarmos contra uma lei que nós memos, psicólogos, deveríamos lutar para ter também.

Não se deixe enganar, LEIA E ESTUDE, sempre.
Se existir na lei, a REALIDADE ganha suporte.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Desatando o Ato Médico

Desatando o Ato Médico
Giovana Del Prette
Psicóloga – CRP 06/77732

Muito se fala sobre o “Não ao Ato Médico”, em campanhas com frases como “O Ato Médico ata-nos”. Entretanto, o primeiro efeito (não importando aqui sua intencionalidade) deste movimento é que os profissionais da saúde podem ter recebido, de pronto, as informações (fatos) juntamente com as opiniões (interpretações sobre fatos). Quando isso acontece, aumenta-se a probabilidade de reagir em função das opiniões, mais do que das informações, às vezes nem sequer se distinguindo uma da outra.

Você, profissional da saúde, já leu o Ato Médico (AM) na íntegra? Você conhece a primeira versão do Projeto de lei nº 268/2002 e o substitutivo ao Projeto de lei nº 7.703/2006? Minha sugestão é que, ainda que já tenha tido algum contato com o Ato Médico, leia agora todos os seus artigos antes de continuar adiante nesse texto – não vale uma “leitura por cima!”. Em seguida, tire suas próprias conclusões. Só então, volte aqui para terminar sua leitura. Porque assim conhecerá as informações sem recortes nem viés, direto da fonte.
Consultei diversos psicólogos a respeito do AM antes de escrever esse texto. Todos eles foram unânimes em admitir que eram contra o Ato, mas que tomaram essa posição sem lê-lo direito. O que eles leram, então? Leram as críticas, reencaminharam os emails aos colegas e, no máximo, colocaram seus nomes nos abaixos-assinados contra o projeto de lei, convencidos de que as críticas eram verdadeiras e assim estariam fazendo sua parte.

Em meu primeiro contato com o AM, confesso que segui o mesmo raciocínio. Tempos depois, ao receber cada vez mais abaixos-assinados e artigos diversos (sempre contra o AM), vi ser possível uma releitura tomando um posicionamento de classe: enquanto membro da classe mais abrangente de “psicólogos” e da classe macro de “profissional de saúde”.

Apontarei alguns trechos do AM, agora, começando pelas variáveis que afetam o “profissional de saúde”, não apenas o psicólogo:

1- Nos Art. 1 a 4, descrevem-se as atividades privativas (como intubação traqueal, sedação) e não privativas (como fazer cateterizaçao, punção, aplicar injeção etc) do médico. Com a descrição das funções não-privativas do médico, compreende-se sobre o que não há exclusividade (que fique claro, ninguém disse que o enfermeiro não pode mais aplicar injeções só porque é uma função médica).

2- No Parágrafo 2º do Art. 4, é afirmado que: “Não são privativos do médico os diagnósticos funcional, cinésio-funcional, psicológico, nutricional e ambiental, e as avaliações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva”. Mais adiante, no Parágrafo 7º do Art. 4, temos: “O disposto nesse artigo será aplicado de forma que sejam resguardadas as competências próprias das profissões de assistente social, biólogo, biomédico, enfermeiro, farmacêutico, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista, profissional de educação física, psicólogo, terapeuta ocupacional e técnico e tecnólogo de radiologia” (grifo meu). Novamente, o texto deixa claro que os atos médicos não vêm alterar os atos dos outros profissionais de saúde que se profissionalizaram por meio de um curso superior (graduação) e que têm suas atividades regulamentadas por lei.

3- No Art. 5, ao listar atos privativos do médico (direção, chefia, coordenação e ensino), novamente o parágrafo único esclarece: “A direção administrativa de serviços de saúde não constitui função privativa de médico” (grifo meu). Além disso, descrições semelhantes são normais, encontradas sobre atos administrativos privativos de outros profissionais da saúde (como no decreto n. 53.464/64, das funções do psicólogo).

Seria possível pensar que o Ato Médico constitui uma “atadura” aos demais profissionais de saúde? Então, qual poderia ser a sua função? Em que medida essa função nos seria útil? Para o médico, parece mais evidente, uma autodefesa, onde a descrição de suas atividades poderia contribuir para evitar a prática ilegal de medicina (disfarçada de prática alternativa nova), e talvez não de sobrepujar os outros profissionais. Os atos do médico ficariam agora estabelecidos em lei (mais rígida, melhor fiscalizada) e não somente pelo Conselho Federal de Medicina (que além de tudo tem o viés de ser administrado só por médicos). Isso é reafirmado no Art. 6, “A denominação de Médico é privativa dos graduados em cursos superiores de medicina e o exercício da profissão, dos inscritos no Conselho Regional de Medicina com jurisdição na respectiva unidade da Federação”.

A melhoria da redação do Ato Médico é algo que deve ser buscado (e não sua refutação), e já começou a acontecer quando comparamos a primeira versão do projeto com a sua substitutiva. Essa melhoria contribui para a redução da possibilidade de brechas na lei; brechas que podem ser utilizadas não necessariamente para prejudicar um grupo de profissionais, mas para interesses diversos como, por exemplo, na administração de planos de saúde. Alguns pontos dos artigos poderiam ser melhor definidos, especialmente esses:

No Art. 4, temos: “São atividades privativas do médico: I-Formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica”; no Parágrafo 1º, a definição de diagnóstico nosológico: “(...) restringe-se à determinação da doença que acomete o ser humano, aqui definida como interrupção, cessação ou distúrbio da função do corpo, sistema ou órgão, caracterizada por no mínimo dois dos seguintes critérios: I-agente etiológico conhecido; II-grupo identificável de sinais ou sintomas; III-alterações anatômicas ou psicopatológicas” e, no Parágrafo 3º, “As doenças, para efeito desta Lei, encontram-se referenciadas na décima revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde”.

O primeiro problema, nesse conjunto de trechos, é que não fica claro como situar problemas de saúde que seriam da competência de outros profissionais. Uma vez que o CID-10 inclui, por exemplo, transtornos psiquiátricos (que atendem aos critérios II e III), parece dar a entender que o caminho do paciente do psicólogo passaria necessariamente pelo médico, o que causou todo o estardalhaço em torno do AM, muito embora isso seja negado nos Parágrafos 2º e 7º (citados anteriormente). Mas, no fim das contas, ainda assim, gera margem para diferentes interpretações da lei. Outra questão é que, usualmente, grande parte dos psicólogos já faz encaminhamentos à psiquiatria para solicitação de diagnóstico mas, com esse texto, aparentemente, ficariam proibidos, por exemplo, de chamar de TOC um conjunto de padrões de comportamentos de seu cliente, a despeito de evidências suficientes para isso. Prato cheio para um plano de saúde restringir o acesso de seus clientes a psicólogos e a terapias mais longas como forma de baratear seus gastos (o que também já ocorre a despeito da criação dessa lei).

Este artigo não pretende esgotar todos os pontos do projeto de lei que precisariam ser revistos mas, para prosseguir na exemplificação da necessidade de melhorias, podemos citar também a importância de diferenciar o que significa “direção administrativa de serviços de saúde” que, no Parágrafo Único do Art. 5, é definida como não exclusiva do médico, mas pode ser confundida com “direção, chefia e coordenação”, dos itens I e II do mesmo artigo, que seriam privativos do médico, o que também é fonte de interpretações dúbias.

Agora, respondendo enquanto classe de “psicólogos”, que bom seria se tivéssemos um Ato Psicológico, definindo as nossas atividades. O mais perto disso está na Lei 4.119 de 1962, Art.13, Parágrafo 1º: “Constitui função privativa do psicólogo a utilização de métodos e técnicas psicológicas com os seguintes objetivos: (a) diagnóstico psicológico; (b) orientação e seleção profissional; (c) orientação psicopedagógica; (d) solução de problemas de ajustamento”.

Como se pode observar, o problema é que se definem (vagamente) os objetivos, mas não os meios (métodos; descrições do que o psicólogo faz de fato). Uma direção de mudança são as pesquisas que investem em produzir conhecimento no que denominamos “Psicoterapia Baseada em Evidência”, ou seja, métodos de intervenção psicológica com resultados comprovados empiricamente. Nessas pesquisas, investigam-se quais são as variáveis da prática responsáveis pela mudança, e com isso é possível fortalecer, aprimorar ou modificar suas bases teóricas. Assim, instituições públicas americanas já têm contratado psicólogos que trabalham com a psicoterapia baseada em evidência, em detrimento daqueles que utilizam outros métodos com menos conhecimento sobre sua efetividade.

Discutir o que é científico no âmbito da psicologia já renderia assunto para um novo artigo. Infelizmente, muitos cursos de graduação em psicologia ensinam tantas teorias quanto possível a seus alunos, simplesmente pelo fato delas existirem. Só porque uma teoria psicológica foi criada, e oferece explicação a um fenômeno, não significa que seja uma explicação científica. Não há, nos termos do Conselho Federal de Psicologia (ao menos nos que estão disponibilizados nos sites dos Conselhos Regional e Federal de Psicologia), qualquer descrição clara do que não é atividade do psicólogo. Se um psicólogo utilizar combinações de cores para tratar seus pacientes, como fiscalizar se essa atividade é legítima? Tenho medo de autodenominações por parte de psicólogos que se adjetivam com termos duvidosos, desde os que integram teorias que epistemologicamente não conversam entre si, aos que misturam misticismo com um quê de sobrenatural e fazem jus às críticas endereçadas à classe em geral. O leigo, com tantas adjetivações, se vê confuso e pode colocar em descrédito o trabalho do psicólogo. Com razão. Se houvesse um “Ato do Psicólogo” - uma lei explicitando suas atividades, escrita com base no conhecimento acumulado sobre o quê fazemos para produzir os melhores resultados sobre os problemas dos pacientes – os psicólogos competentes teriam respaldo, os cursos universitários teriam melhores diretrizes, os estudantes teriam melhores condições de escolha e os clientes teriam mais informações para escolher um profissional e saber o que esperar do tratamento.

Ao menos, pelo Ato Médico, indiretamente os outros profissionais da saúde foram beneficiados pela listagem das profissões regulamentadas por lei, que possuem curso superior para ensiná-las. Nada foi listado sobre cromoterapeutas, terapias de vidas passadas, nem manipuladores de florais e aromas. Que se saiba quais são as intervenções sobre a saúde humana reconhecidas pela lei.

Ainda estamos longe do ideal, mas o trabalho sobre a melhora da saúde das pessoas deveria ser aquele que: (1) o profissional é apto a realizar porque estudou e consta na grade curricular do curso superior que realizou; (2) consta na grade curricular porque tem resultados comprovados e coerência teórica interna e (3) tem compromisso com a melhor resolução possível do problema de saúde que lhe compete intervir. O último item pode parecer óbvio, mas infelizmente nossa cultura tem aceitado trabalhos paliativos, que funcionam como “coadjuvante” de tratamentos, e que portanto o consumidor (paciente) não pode cobrar pela qualidade do produto (terapia) que está adquirindo. É mais comum ouvirmos “procurei aquele tratamento porque faz bem”, do que “procurei porque funciona”.

Talvez os profissionais da saúde tenham acreditado nas informações divulgadas, uma vez que os seus Conselhos os representam em questões políticas (já que faz parte de sua incumbência) e, portanto, confiaram nas informações que têm sido difundidas sem uma análise cuidadosa que considerasse o quanto a mensagem foi se distorcendo, ao gerar sentimento de ameaça. Os textos contra o ato médico, com fotos de mãos cerradas e algemadas, emitidos em sites e em jornais dos Conselhos e outros, podem parecer panfletagem inflamada, aguçando nossas emoções e aumentando assim a probabilidade de adesão. O caso é que a eleição de um inimigo externo, sabidamente, fortalece o sentimento de classe e aumenta a sua coesão interna, necessária quando se deseja mobilização. Isso ainda é muito mais fácil de se obter quando se trata de acirrar uma luta entre “os médicos e os outros”, que é ensinada desde cedo, aos graduandos de cursos de saúde, até mesmo em universidades públicas renomadas do país. Revoltar-se contra uma lei é fácil, e faz nos sentirmos ativistas politizados pertencentes à nossa classe. Entretanto, deveríamos investir em ler, compreender e, quem sabe, aproveitar a idéia para a sua melhoria (e inclusive de nossos próprios atos). A discussão sobre as vantagens do Ato Médico, e também sobre as reformulações necessárias em sua redação, deve ir além do texto em si, mas abrir a oportunidade para revermos e, quem sabe, modificarmos, algumas práticas que o AM descreve porque já têm ocorrido entre profissionais da saúde, o que em última instância envolve diversas questões, como a definição de métodos científicos de intervenção, do que tem sido ensinado na formação desses profissionais, e do que nossa cultura tem aceito como prática.